30 janeiro 2026

Palavra de poeta

Dançarina espanhola
Rainer Maria Rilke  

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Leia também: "Estou fora, muito obrigado" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_25.html

Postei nas redes

Na grande mídia neoliberal, "analistas" políticos choram pela dificuldade de se encontrar uma candidatura de direita competitiva para enfrentar Lula e o filho do ex-presidente presidiário. 

Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html 

Boa notícia

Desemprego atinge menor patamar no Brasil, diz IBGE
Em 2025, apenas 5% da população estava desocupada, enquanto os empregados somaram 103 milhões. País também bateu recorde no ganho dos trabalhadores
Priscila Lobregatte/Vermelho    

O Brasil teve, em 2025, a menor taxa de desemprego da série histórica, de 5,1%, com a população ocupada chegando em 103 milhões de pessoas. Os patamares foram os melhores já atingidos desde 2012, segundo a Pnad Contínua, do IBGE, divulgada nesta sexta-feira (30).

De acordo com a pesquisa, com o resultado de dezembro, a taxa anual do indicador de desemprego caiu de 6,6%, em 2024, para 5,6%, em 2025.  Em um ano, a média de pessoas sem emprego caiu de 7,2 para 6,2 milhões.

A coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do IBGE, Adriana Beringuy, salientou que “a queda da desocupação não foi provocada por aumento da subutilização da força de trabalho ou do desalento, reduzindo a pressão por trabalho.  A trajetória de queda da taxa de desocupação em 2025 foi sustentada pela expansão da ocupação, principalmente nas atividades de serviços”.

Também foi recorde o nível de ocupação — percentual de pessoas que estão ocupadas na idade de trabalhar. Conforme os dados, em 2025 esse índice ficou em 59%, enquanto em 2024 era de 58,6% e em 2012 era de 58%. Seguindo a mesma trajetória, o nível de subutilização também foi o menor dos últimos 13 anos, 14,5% — ante 16,2% em 2024.

Leia também: Trabalhadores conquistam aumento acima da inflação em 77,7% das negociações

Quando analisado o quarto trimestre do ano passado, o saldo também é positivo. A taxa de desocupação, de 5%, apresentou queda tanto na na comparação com o trimestre de julho a setembro — com -0,5 ponto percentual — quanto a igual trimestre de 2024. Naquele momento, a marca foi de 6,2%, com redução de -1,1 p.p.

Ao analisar o último trimestre do ano com o anterior (de julho da setembro), o IBGE verificou que as atividades que tiveram maior aquecimento foram os de Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas (1,6%, ou mais 299 mil pessoas) e Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (1,5%, ou mais 282 mil pessoas).

Informalidade em queda

O IBGE também verificou que o país teve aumento no número de empregos formais (com carteira assinada). Conforme a estimativa, o crescimento foi de 2,8% em 2025 na comparação com o ano anterior e atingiu quase 39 milhões de pessoas. O quantitativo também foi recorde, registrando um acréscimo de cerca de 1 milhão de pessoas com carteira assinada em relação a 2024.

Já o contingente anual de empregados da iniciativa privada sem carteira assinada caiu 0,8%, passando de 13,9 milhões para 13,8 milhões de pessoas.

Leia também: Lula defende valorização contínua do salário mínimo nos 90 anos de sua criação

Refletindo o forte processo de precarização e a tendência ao empreendedorismo, os brasileiros que trabalham por conta própria foi o maior da série, com estimativa anual de 26 milhões, crescimento de 2,4% em relação a 2024, quando foi de 25,5 milhões.

Na comparação com o início da série em 2012, quando era de 20 milhões, o crescimento foi de 30,4%. A taxa anual de informalidade passou de 39%, em 2024, para 38% em 2025.

Na avaliação de Adriana, a taxa de informalidade reflete característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro. “A composição e dinâmica da população ocupada ainda é bastante dependente da informalidade, sobretudo, devido à grande participação de trabalhadores no comercio e em segmentos de serviços menos complexos”.

Massa salarial em alta

O quadro positivo da economia e do mercado de empregos também se refletiu no bolso dos trabalhadores: o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas foi estimado em R$ 3.560, um aumento de 5,7% (ou R$ 192) na comparação com 2024. Na série histórica da pesquisa, desde 2012, o menor resultado havia sido em 2022 (R$ 3.032).

Já o valor anual da massa de rendimento real habitual chegou a R$ 361,7 bilhões, em 2025, o maior da série, com alta de 7,5% (mais R$ 25,4 bilhões) em relação a 2024.

As atividades com melhor performance nesse quesito foram as de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, além do setor de administração pública, defesa, educação, saúde humana, seguridade social e serviços sociais.

De acordo com a coordenadora da pesquisa, “além desses impulsos setoriais, a valorização do salário-mínimo influenciou o ganho de rendimento nos segmentos de atividades mais elementares e menos formalizadas. Dessa forma, independente da forma de inserção na ocupação, o crescimento do rendimento foi difundido para a população ocupada como um todo”.

Leia também Descortino tático na disputa eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_15.html

Humor de resistência

 

Nando Motta

A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html 

Sylvio: energúmeno

A imagem do imaturo Nicolas agredindo um boneco de plástico do presidente Lula é muito sugestiva. É uma antecipação do que o povo brasileiro pretende fazer com o agressor nas próximas eleições. Compará-lo a um líder mundial como nosso ex-presidente é uma agressão à História e ao bom senso. Cresce e aparece figura diminuta.

Sylvio Belém  

À direita, todos brigam e ninguém tem razão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_22.html 

Juros abusivos

Juro real no Brasil atinge maior nível em 20 anos e expõe abusos do BC
Com a Selic em 15%, o país atinge juro real de 10,6% e consolida a 2ª maior taxa do mundo, penalizando trabalhadores e favorecendo rentistas
Davi Molinari/Vermelho   

A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quarta-feira (28), de manter a Selic em 15% pela quinta vez consecutiva elevou o juro real brasileiro a 10,6%, nível não visto desde maio de 2006. Com a inflação projetada em 4% para 2026, o país se consolida como o segundo com maior juro real entre as 40 principais economias, atrás apenas da Rússia.

O juro real, resultado da diferença entre a Selic e a inflação, é o mais alto em duas décadas. O Brasil ocupa a segunda posição global há sete meses, com variações entre 9,23% e 10,6%, superando Argentina e Turquia. Em termos nominais, aparece em quarto lugar, atrás de Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (16%). Nos Estados Unidos, o índice é de 1,55%, enquanto o Japão registra -1,18%.

Desde 2006, picos acima de 10% foram raros. Durante a pandemia, os juros chegaram a ser negativos, mas o retorno ao patamar atual marca um dos períodos mais restritivos da política monetária brasileira.

Alta persistente apesar da desaceleração da inflação

Apesar da desaceleração do IPCA-15 de janeiro — que registrou 0,20% e acumulou 4,5% em 12 meses, situando-se dentro da margem de tolerância —, o Copom sinalizou que cortes ocorrerão apenas a partir de março. Mesmo com indicadores revelando que a economia gira com menores índices de inflação, o comunicado do Comitê justificou a manutenção da Selic pela persistência de incertezas externas e expectativas inflacionárias acima da meta oficial de 3% (com tolerância de 1,5 ponto percentual).

O efeito da política monetária em curso drena para os títulos públicos recursos que seriam destinados a investimentos produtivos. Além disso, encarece o crédito, trava novos investimentos e sufoca o consumo das famílias devido ao endividamento, que já atinge 79,5% dos lares, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A dívida pública brasileira alcançou R$ 8,6 trilhões em 2025, com R$ 984 bilhões pagos apenas em juros (o equivalente a 7,98% do PIB), consumindo praticamente metade do Orçamento da União.

Sociedade critica a Selic a 15% 

Centrais sindicais como CTB, CUT e Força Sindical apontam prejuízos severos ao emprego e ao consumo. Para Adilson Araújo, presidente da CTB, “a dívida pública se transformou no principal meio de valorização do capital operado por banqueiros, agiotas e rentistas em nosso país. O pagamento de juros a favor desta casta de parasitas consome, agora, mais do que a metade do orçamento público e configura uma brutal transferência de renda do conjunto da sociedade para os rentistas”, afirmou.

As críticas ao nível alto da Taxa Selic também encontram eco no setor produtivo. A indústria, representada pela CNI, e o setor da construção civil criticam a restrição ao crédito imobiliário, que inviabiliza investimentos e o acesso da população à moradia. O editorial do portal Vermelho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_30.html  reforça que a atual política monetária é antagônica aos interesses populares, blinda o rentismo e exige uma reforma profunda no sistema financeiro, visando recolocar o Banco Central sob o controle do Estado.


Leia também: O Governo Lula diante do Estado disfuncional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/estado-brasileiro-disfuncional.html 

Uma crônica de Enio Lins

Quatro décadas do nascimento de um bloco revolucionário
Enio Lins    

HÁ QUARENTA ANOS, 30 de janeiro caiu numa quinta-feira. Naqueles dias, o PCdoB, então partido hegemônico nas esquerdas alagoanas, estava envolvido numa missão imprevista e que não fazia parte de seu programa político, nem de sua tática ou estratégia. Eram os preparativos para o nascimento do bloco Meninos da Albânia, que viria à luz três dias depois, no Domingo de Banho de Mar a Fantasia.

ESTRESSE ENORME naquela quinta-feira, penúltimo dia útil antes da esbórnia dominical. Além da ansiedade pelo acontecimento inédito, a tensão se multiplicava pela necessidade de aquisição de produtos para alegorias, fantasias, estandarte. Muito trabalho de última hora, com adereços confeccionados – na raça – por uma militância dedicada, mas amadora, inexperiente na artesania momesca. Mas, ao fim e ao cabo, tudo deu certo. Surgiu um bloco com cara de troça, com humor e cachaça na mamadeira.

DEPOIS DA DÉCADA 1960, arrefecera o carnaval de rua maceioense. Mingou o público, que migrou para os bailes nos clubes locais e para as ruas de Olinda e Recife. Os antigos blocos como Cavaleiro dos Montes, Sai da Frente, Pitanguinha Vai à Lua, Vulcão, e tantas outras agremiações históricas resistiam bravamente, mas desfilavam para calçadas cada vez mais esvaziadas. Apesar de, em 1975, artistas terem criado o bloco Filhinhos da Mamãe, e em 1983 surgir o Pecinhas de Maceió, era um consenso que o Carnaval de Rua passava por enormes dificuldades. Nesse quadro, no final de 1985, Edécio Lopes, carnavalesco dedicado, através de seu programa Manhãs Brasileiras, na Rádio Gazeta AM, líder incontestável de audiência, resolveu fazer uma provocação tão bem-humorada quanto incisiva ao PCdoB: criar um bloco carnavalesco, transformando em verdade uma brincadeira despretensiosa publicada num efêmero jornal.

LUTA POPULAR era o nome de um bravo semanário que circulou, às segundas-feiras, durante 1985. Fundado pelo PCdoB alagoano como experiência de um “jornal de massas” local, o hebdomadário se engajou na campanha de Djalma Falcão à prefeitura de Maceió pela coligação PMDB, PSB e PCdoB. Era a primeira vez, depois da curta legalidade entre 1945 e 1947, que os comunistas participavam com siglas próprias das eleições. Na campanha, a combatividade da militância jovem do PCdoB chamou a atenção, e o termo “Meninos da Albânia” foi cunhado pejorativamente pelos adversários (francos favoritos) numa tática marqueteira que não deu certo: em 15 de novembro, a tríplice aliança em torno de Falcão voou alto e levou a eleição no bico, graças, em parte, à energia da meninada “albanesa”. Eleição finda, missão comprida, a publicação fechou as portas para alívio de uma redação 100% voluntária. No último número, Plínio Lins escreveu uma notinha, tirando onda, dizendo que a alegria com a vitória era tanta que os “Meninos da Albânia” iam virar um bloco carnavalesco. Aí Edécio Lopes pegou pelo pé. Não adiantou explicar que essa não era meta, que a militância estava exaurida pela campanha eleitoral etc.

NASCEU ASSIM, a fórceps, o bloco Meninos da Albânia. Dois foram os desfiles, nos dias 2 e 7 de fevereiro de 1986. Veio ao mundo com músicas autorais, composições de Ricardo Mota e Roberto Barbosa, as sátiras “Emissário Submarino” e “Lei Seca” e uma apologia à Constituinte. Um roupão apelidado de “mortalha” era a vestimenta, tecido adquirido à crédito no Cotonifício João Nogueira, cuja loja da fábrica ficava na Rua Augusta, perto da sede do Partido. Chico de Assis atuou como o porta-estandarte. A boate Maceiork (em Jaraguá) – cedida por Mário Aloísio, Dênio Ramos, e Paulo “Ventinha” – como barracão; o combustível foi uma batida com cachaça de cabeça, batizada como "Gargarejo do Dragão". Um enorme sucesso! Edécio estava certo, foi dado um grande impulso ao carnaval de rua. Parte desse movimento desagua, anos depois, nos contemporâneos Pinto da Madrugada e Jaraguá Folia. E têm mais histórias. 

EM RESUMO, fica o registro, e o anúncio que, neste ano, em 6 de fevereiro, desfiliará o bloco Tributo aos Meninos da Albânia, no Jaraguá Folia. Apareça por lá, para dar sequência a essa caminhada.

Leia também O ex-técnico pinguço e o carnaval televisivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_27.html